“Estatuto das Famílias do Século XXI” gera polêmica em Brasília

Texto diz que são famílias todas as formas de união entre duas ou mais pessoas que para este fim se constituam e que se baseiem no amor. Críticos dizem que proposta 'legaliza incesto'. Capitão Augusto (PL-SP) discursou sobre o texto na última terça-feira, 20.
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O projeto de lei intitulada "Estatuto das Famílias do Século XXI", que ampliaria o conceito de família gerou bate-boca entre deputados durante a sessão desta quarta-feira (21) da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Apresentada pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), a proposta define como famílias: "Todas as formas de união entre duas ou mais pessoas que para este fim se constituam e que se baseiem no amor, na socioafetividade, independentemente de consanguinidade, gênero, orientação sexual, nacionalidade, credo ou raça, incluindo seus filhos ou pessoas que assim sejam consideradas."

Pela Constituição, família é a "união estável entre o homem e a mulher".

Mas o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) já reconheceu a união estável de homossexuais, assegurando o direito dos casais gays, e o Conselho Nacional de Justiça já proibiu os cartórios de recusar a realização de casamentos gays.

Confira o texto da proposta na imagem abaixo:

Texto da proposta do "Estatuto das Famílias do Século XXI" (Foto: Reprodução)

A polêmica

Deputados críticos ao projeto, muitos deles ligados à bancada religiosa, têm dito que o texto irá "legalizar o incesto" e "legalizar a suruba" em razão do trecho "independentemente de consanguinidade".

Incesto é a relação sexual entre membros de uma família ou entre parentes de sangue. A legislação brasileira veda essa prática.

“Só de causar esta dúvida, o projeto deveria ser retirado. Não podemos aceitar mais essa aberração”, destacou o deputado Capitão Augusto (PL-SP), na tribuna na última terça-feira, 20. (Confira o vídeo abaixo)

"Esse projeto institui, na verdade, o estatuto da suruba da família do século 21", declarou o deputado Delegado Éder Mauro (PSD-PA).

Durante a sessão da Comissão de Direitos Humanos, Orlando Silva contestou as críticas, chamando-as de "absurdas".

"Temos que reconhecer os arranjos familiares que correspondem à realidade social do Brasil, como uma avó e um neto. O que não aceito é alguém imaginar que seria proposta a legalização do incesto. É bestial", disse Orlando Silva.

O autor afirmou ainda que a intenção do projeto é considerar as diferentes composições familiares e que a parte que trata da consanguinidade se refere a filhos adotivos.

"Quem imagina que se refere a incesto, imagina mal, porque exigiria revogar o Código Civil que veda essa prática – o que eu não proponho – além de o incesto ser um tabu secular em todas as religiões", disse.

 

O que diz o Código Civil?

O artigo 1.521 do Código Civil estabelece que não podem casar:

os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou civil;

os afins em linha reta;

o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante;

os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o terceiro grau inclusive;

o adotado com o filho do adotante.

Pauta de votações

O projeto constava da pauta de votações desta quarta, mas, diante da polêmica, foi retirado pelo presidente da comissão, Helder Salomão (PT-ES), ainda nesta terça (20).

Salomão foi muito criticado durante a sessão em razão de uma nota publicada no site da comissão em que era comunicada a retirada de pauta a pedido do relator, Túlio Gadêlha (PDT-PE) (namorado da apresentadora Fátima Bernardes).

Na nota, o presidente disse "o projeto tem sido objeto, nas redes digitais, de interpretações distorcidas". Na avaliação dos deputados contrários ao texto, Salomão estaria tomando partido a favor da proposta.

"A retirada foi pior do que manter na pauta e a gente aqui poder, com muito equilíbrio, fazer um bom debate, porque tenho certeza de que a gente vai derrubar", afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos integrantes da bancada evangélica.

O relator, Túlio Gadêlha, que já havia apresentado parecer favorável à proposta, afirmou que o projeto pretende somente "contemplar os mais diversos arranjos familiares".

Nova tensão

A reunião transcorreu a maior parte do tempo em clima tenso. Os ânimos ficaram ainda mais acirrados e houve um princípio de tumulto quando o deputado David Miranda (PSOL-RJ) citou a decisão do Supremo Tribunal Federal de equiparar homofobia ao racismo.

Miranda disse que os deputados ainda iriam "ladrar" muito. Os deputados Delegado Éder Mauro (PSD-PA) e a Policial Katia Sastre (PL-SP) protestaram dizendo que os parlamentares tinham sido chamados de cachorros. Diante da gritaria, Miranda disse que retirava o termo

 

Confira o que disse Capitão Augusto sobre o projeto: