João Neto: A melhor idade...

Compartilhe:
Ainda com o gosto do creme dental na boca, ao abrir o basculante do banheiro, percebi o sol se esbaldando na água azul da piscina... Ouvi o grito do bem-te-vi anunciando, além do novo dia, quem mandava no quintal e, após as devidas abluções, diante do espelho de meia parede, troquei uma ideia comigo mesmo, olhos nos olhos. Falamos da vaga de idoso que conquistei pela quantidade de janeiros que percorri...

Reclamei da falta dos cabelos que, aos poucos, foram desertando, feito a melanina que os descoloriram... Minha pele perdeu a textura e as letras diminuíram diante do meu olhar, justo eu, fiel seguidor das boas letras.



O espelho, interrogativo, me interpelou... Ponderou sobre as vitórias alcançadas... Foi taxativo (tipo: "quem te viu e quem te vê") ao lembrar dos meus tempos de engraxate na antiga estação rodoferroviária de Ourinhos.

O espelho meu, lembrou os amigos que comigo peleiam e as raras derrotas, que serviram para lembrar que não somos perfeitos, mas, passíveis de falhas que, por vias tortas, contribuem para o crescimento como ser humano, ciente das limitações, porém, com fantástica capacidade de adaptação e reação.

O espelho meu encerrou a conversa, no momento em que falou da presença de Deus no meu coração!

Tive que dar razão ao espelho meu... Realmente, muito pouco a reclamar... Foram muitas, claras e contundentes vitórias, ainda que tenham vindo aos quarenta do segundo tempo, talvez por isso se fizeram tão especiais.

Há tempos perdi o medo dos desafios... Meu próprio medo que, em alguns trechos, tentou canibalizar minha coragem... Hoje observo tudo com olhar desafiante e pronto para prosseguir.

Sigo em frente, enquanto a felicidade marca a cadência eu canto:
"Felicidade, brilha no ar, como uma estrela, que não está lá...".