João Neto: Bilhete de Libertação

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Numa tarde fria e ventosa de agosto, naqueles tempos de sonhos e lutas horrendas, fui varrer o quintal - perto da horta, a pedido de minha mãe.

De repente, uma rajada de vento frio, que só o mês de agosto proporciona, arrastou até meus pés uma folha de caderno amassada e suja.

Por curiosidade, desamassei aquele bolinho de papel e sentei para lê-lo... Era uma cartinha de despedida, quase libertação, de minha irmã para o então namorado - um playboyzinho inconsequente, apesar de trabalhador, que vivia montado no seu sapato plataforma, calça boca de sino e camisa volta ao mundo.

Um bilhete raivoso, carregado de mágoas e frustrações, ao mesmo tempo decidido e libertário, essa frase a seguir define, com exatidão, todo conteúdo daquela página inteira:
“Esta vida é um teatro, cada um tem seu papel, mas eu estou fazendo o papel de palhaça... não me procure mais, vai cuidar da sua vida!”. Não sei se ela leu essa frase em algum lugar ou ouviu em alguma radionovela daqueles anos 70.

Rapazzz... uma alegria tomou conta de mim, que menina decidida e corajosa, esta não tem meio termo, esta é minha irmã, esta honra a nosso sangue italiano! Certamente ela vencerá outras dificuldades sem baixar a cabeça, ainda que possa sofrer e debruçar os cotovelos na mesa ouvindo alguma canção de sofrência do Nilton César!

Não comentei nada com ninguém, rasguei o bilhete e guardei com orgulho o conteúdo daquela escrita.

Pois bem... semanas depois fui ao Cine Pedutti, estava passando “To Sir, With Love” ou “Ao Mestre Com Carinho” no nosso português enrolado, estrelado por Sidney Poitiier... Eis que vejo minha irmã de mãos dadas com o “zé ruela” da calça boca de sino.
Me decepcionei, pensei que a carta de despedida tivesse feito efeito, aí analisando os fatos, notei que: se o bilhete estava em casa, obviamente não foi enviado ao destinatário da camisa volta ao mundo!

O tempo passou, tempos depois eles se casaram, ele nem usa mais aqueles trajes cafonas, constituíram família, estão prestes a completar bodas de ouro!



Se o bilhete tivesse sido entregue, certamente, uma grande família não teria sido constituída, os três filhos e os quatro netos nem existissem.

São encontros e desencontros que a vida nos prepara, este teve final feliz...

Ainda bem!
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