Num outro domingo de verão, antevéspera do ano novo, minha mãe grita do portão:
- Marreco, levanta que tem gente te procurando!
Fui atender, achando que poderia ser algum moleque chamando pra jogar bola no seminário; não era... era um sujeito espalhafatoso, de fama duvidosa, que morava perto do Bar do Paixão, logo ali na Domingos Perino!
Achei que ele tivesse ido me chamar atenção pois, junto com a molecada, eu o também o "zoava" pelas ruas da Vila Perino.
Me enganei:
- Marreco, você engraxa meus tamancos e minha bota, e quanto você cobra?
Ainda surpreso em ver o Pelegrino no portão de casa respondi:
- Dois cruzeiros cada par de tamanco e cinco cruzeiros o par de botas, nove cruzeiros tudo!
- Você consegue engraxar tudo até a hora do almoço?
- Sim, consigo!
Por sorte eu tinha comprado, na sexta-feira, um tubo de tinta Odd branca, recém lançada pela Orniex... A bota do cara era feminina, assim como os tamancos, todos brancos.
Logo depois do almoço ele foi buscar sua encomenda, me pagou com uma nota de 10 e nem quis troco, virou meu freguês... Toda sexta-feira era sagrado, ele me levava calçado para engraxar, meu primeiro freguês "home office"!
Bem, o Pelegrino era um sujeito estranho, psicodélico - camisa amarrada na barriga, calça agarrada, baton rosa e cheio de trejeitos... Andava pelas ruas de Ourinhos, humilhado por sua homossexualidade (talvez o primeiro da cidade). Era desrespeitado na mais cruel versão do Chico Buarque "joga pedra na Geni".
Dizem que o rapaz era um super criativo cozinheiro de um restaurante chique da cidade!
Logo mudamos para a Barra Funda, deixei de ser engraxate, fui trabalhar registrado.
Na Barra Funda descobri uma outra face do rejeitado Pelegrino; todos os dias ele trazia, do restaurante onde trabalhava, um prato de comida para uma senhora negra, solitária, conhecida como Cota, que morava na Rua Pará e vivia vagando pela cidade!
Pois é... meu grande freguês "home office" era também um ser humano melhor que muita gente... E nós preocupados com sua aparência e sexualidade!
Onde quer que esteja, Arlindo Pelegrino, aceite meu sincero pedido de perdão, pelos deboches... Meu caro, o mundo anda carente de "homens estranhos" feito você!
Feliz ano novo!
- Marreco, levanta que tem gente te procurando!
Fui atender, achando que poderia ser algum moleque chamando pra jogar bola no seminário; não era... era um sujeito espalhafatoso, de fama duvidosa, que morava perto do Bar do Paixão, logo ali na Domingos Perino!
Achei que ele tivesse ido me chamar atenção pois, junto com a molecada, eu o também o "zoava" pelas ruas da Vila Perino.
Me enganei:
- Marreco, você engraxa meus tamancos e minha bota, e quanto você cobra?
Ainda surpreso em ver o Pelegrino no portão de casa respondi:
- Dois cruzeiros cada par de tamanco e cinco cruzeiros o par de botas, nove cruzeiros tudo!
- Você consegue engraxar tudo até a hora do almoço?
- Sim, consigo!
Por sorte eu tinha comprado, na sexta-feira, um tubo de tinta Odd branca, recém lançada pela Orniex... A bota do cara era feminina, assim como os tamancos, todos brancos.
Logo depois do almoço ele foi buscar sua encomenda, me pagou com uma nota de 10 e nem quis troco, virou meu freguês... Toda sexta-feira era sagrado, ele me levava calçado para engraxar, meu primeiro freguês "home office"!
Bem, o Pelegrino era um sujeito estranho, psicodélico - camisa amarrada na barriga, calça agarrada, baton rosa e cheio de trejeitos... Andava pelas ruas de Ourinhos, humilhado por sua homossexualidade (talvez o primeiro da cidade). Era desrespeitado na mais cruel versão do Chico Buarque "joga pedra na Geni".
Dizem que o rapaz era um super criativo cozinheiro de um restaurante chique da cidade!
Logo mudamos para a Barra Funda, deixei de ser engraxate, fui trabalhar registrado.
Na Barra Funda descobri uma outra face do rejeitado Pelegrino; todos os dias ele trazia, do restaurante onde trabalhava, um prato de comida para uma senhora negra, solitária, conhecida como Cota, que morava na Rua Pará e vivia vagando pela cidade!
Pois é... meu grande freguês "home office" era também um ser humano melhor que muita gente... E nós preocupados com sua aparência e sexualidade!
Onde quer que esteja, Arlindo Pelegrino, aceite meu sincero pedido de perdão, pelos deboches... Meu caro, o mundo anda carente de "homens estranhos" feito você!
Feliz ano novo!



