Naquele final de novembro de 2005, além das dezenas de propagandas do Natal que ecoavam pela mídia, a chuva também insistia por dias, intermitente... lembro que trabalhei o dia todo, correndo pra lá e pra cá, nem dava mais pra ver que a camionete era branca, dada a quantidade de barro que cobria sua lataria.
Seis e meia da tarde, a negritude da noite caía sobre a cidade, havia acabado de atender a última reclamação daquele dia exaustivo... estava retornando à base, cansado, mas com o sentimento de dever cumprido!
Antes de sair da camionete para ir pra casa, via rádio, a central de operações me chama, pedindo pra atender mais uma reclamação, lá pelos lados do Taquaral.
Putz... eu “cansadaço” e com fome, quase recusei, porém, pensei na família sem luz, longe pra “dedéu”, e ponderei: e se tivesse criança na casa sem luz?
Respondi o operador:
- Pode mandar a ocorrência!
Me dirigi para o endereço, demorei mais de duas horas pra chegar lá... A estrada estava impraticável, sozinho fiz aquele "rallye off-road", a camionete mais deslizava e patinava que rodava, o barro tomou conta de tudo, até do para-brisas.
Perdi um tempão para encontrar o defeito, mas arrumei, pra complicar ainda mais, meu farolete acabou a bateria, o celular estava sem sinal, chamei a central no VHF ninguém respondeu, o lugar era muito isolado.
Na volta a coisa complicou de vez, o céu desabou de novo, e dá-lhe mais chuva, vento, trovões e relâmpagos... Num determinado trecho, um pequeno barranco deslizou para o meio da estrada, para desviar daquele monte de terra a roda dianteira esquerda acabou caindo dentro de um buraco. Tentei de tudo quanto foi jeito, liguei além da tração a reduzida... Fiquei um tempão pelejando, a camionete não saia do lugar, percebi que eu estava judiando do veículo!
Sem ajuda naquela escuridão total e absoluta, todo molhado e sujo de lama, decidi encerrar as tentativas, era melhor fechar a camionete e dormir ali mesmo, peguei minha garrafa d'água e bebi um pouco, lembrei que levava um pacotinho de bolacha "água e sal" no porta luvas, de tanta fome comi a bolacha feito um animal.
Já passava da meia-noite, deitei atravessado no banco da camionete, retirei meu coturno todo encharcado e, antes de tentar dormir, rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Pensei comigo: o barulho da chuva e os relâmpagos me farão dormir rapidamente, desde criança adoro dormir com chuva!
Quando comecei a cochilar, um raio estrondoso me fez despertar... Levantei num solavanco, sentei no banco do sapo... Percebi que a noite ia ser longa.
A chuva estava se afastando, os relâmpagos também.
De repente, na claridade do flash do relâmpago, percebi uma mulher, com uma toalha na cabeça se aproximando. Tive medo!
Vesti o coturno e saí da camionete para conversar com aquela senhora que surgiu do nada:
- Boa noite, moço... Lá de casa ouvi a sua camionete acelerando sem parar... Tá precisado de ajuda? Questionou.
- Precisando eu estou, mas não tenho o que fazer, vou esperar amanhecer, amanhã de manhãzinha vou atrás de algum trator pra me puxar! Volte para sua casa, descansar! Respondi.
Na escuridão fiquei conversando com ela, não conseguia ver seu rosto, tinha a voz serena, era otimista!
Ela ponderou:
- Esse aguaceiro, que acabou de cair, lavou a estrada, eu ajudo o senhor jogar algumas pedras no buraco, com a roda calçada o senhor consegue sair! Foi contundente.
- Boa ideia, mas pode ir descansar, eu mesmo jogo as pedras! Respondi.
- Não, não... eu ajudo!
E assim foi feito, jogamos muita pedra o buraco, pedi pra ela se afastar - liguei a tração e a reduzida, engatei a ré e, sem nenhum esforço, retirei a camionete do buraco.
- Eu gostaria saber quanto que é seu trabalho, minha senhora?
- Não é nada, pode ir embora com Deus!
- Não é justo, eu quero pagar a senhora! Ou melhor, quero saber onde mora, amanhã trago um presente!
- Sim, moro na primeira casinha de madeira depois da ponte que vai para o São Joaquim!
- Como a senhora se chama?
- Me chamo Maria!
- Muito obrigado, Deus abençoe a senhora!
Ela disfarçou um sorriso e, antes de sair, ajeitou aquela toalha surrada na cabeça, desejou boa noite e, caminhando lentamente, sumiu na escuridão.
Em sentido contrário segui meu caminho de volta, realmente, a última chuva havia lavado a estrada.
Rapidamente cheguei em casa. Na manhã seguinte, aproveitando as horas do descanso regulamentar, decidi levar uma cesta básica e um panetone para aquela senhorinha abençoada que havia me socorrido.
Chegando na ponte entre o Taquaral e o São Joaquim, perguntei para um morador, da casinha de madeira onde morava Dona Maria!
- Moço, aqui neste pedaço não tem nenhuma Maria, a casinha de madeira que havia aqui foi demolida faz mais de 20 anos!
Agradeci e parti, tempos depois é que fui entender: Naquela madrugada eu, verdadeiramente, havia conhecido Maria!
Seis e meia da tarde, a negritude da noite caía sobre a cidade, havia acabado de atender a última reclamação daquele dia exaustivo... estava retornando à base, cansado, mas com o sentimento de dever cumprido!
Antes de sair da camionete para ir pra casa, via rádio, a central de operações me chama, pedindo pra atender mais uma reclamação, lá pelos lados do Taquaral.
Putz... eu “cansadaço” e com fome, quase recusei, porém, pensei na família sem luz, longe pra “dedéu”, e ponderei: e se tivesse criança na casa sem luz?
Respondi o operador:
- Pode mandar a ocorrência!
Me dirigi para o endereço, demorei mais de duas horas pra chegar lá... A estrada estava impraticável, sozinho fiz aquele "rallye off-road", a camionete mais deslizava e patinava que rodava, o barro tomou conta de tudo, até do para-brisas.
Perdi um tempão para encontrar o defeito, mas arrumei, pra complicar ainda mais, meu farolete acabou a bateria, o celular estava sem sinal, chamei a central no VHF ninguém respondeu, o lugar era muito isolado.
Na volta a coisa complicou de vez, o céu desabou de novo, e dá-lhe mais chuva, vento, trovões e relâmpagos... Num determinado trecho, um pequeno barranco deslizou para o meio da estrada, para desviar daquele monte de terra a roda dianteira esquerda acabou caindo dentro de um buraco. Tentei de tudo quanto foi jeito, liguei além da tração a reduzida... Fiquei um tempão pelejando, a camionete não saia do lugar, percebi que eu estava judiando do veículo!
Sem ajuda naquela escuridão total e absoluta, todo molhado e sujo de lama, decidi encerrar as tentativas, era melhor fechar a camionete e dormir ali mesmo, peguei minha garrafa d'água e bebi um pouco, lembrei que levava um pacotinho de bolacha "água e sal" no porta luvas, de tanta fome comi a bolacha feito um animal.
Já passava da meia-noite, deitei atravessado no banco da camionete, retirei meu coturno todo encharcado e, antes de tentar dormir, rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Pensei comigo: o barulho da chuva e os relâmpagos me farão dormir rapidamente, desde criança adoro dormir com chuva!
Quando comecei a cochilar, um raio estrondoso me fez despertar... Levantei num solavanco, sentei no banco do sapo... Percebi que a noite ia ser longa.
A chuva estava se afastando, os relâmpagos também.
De repente, na claridade do flash do relâmpago, percebi uma mulher, com uma toalha na cabeça se aproximando. Tive medo!
Vesti o coturno e saí da camionete para conversar com aquela senhora que surgiu do nada:
- Boa noite, moço... Lá de casa ouvi a sua camionete acelerando sem parar... Tá precisado de ajuda? Questionou.
- Precisando eu estou, mas não tenho o que fazer, vou esperar amanhecer, amanhã de manhãzinha vou atrás de algum trator pra me puxar! Volte para sua casa, descansar! Respondi.
Na escuridão fiquei conversando com ela, não conseguia ver seu rosto, tinha a voz serena, era otimista!
Ela ponderou:
- Esse aguaceiro, que acabou de cair, lavou a estrada, eu ajudo o senhor jogar algumas pedras no buraco, com a roda calçada o senhor consegue sair! Foi contundente.
- Boa ideia, mas pode ir descansar, eu mesmo jogo as pedras! Respondi.
- Não, não... eu ajudo!
E assim foi feito, jogamos muita pedra o buraco, pedi pra ela se afastar - liguei a tração e a reduzida, engatei a ré e, sem nenhum esforço, retirei a camionete do buraco.
- Eu gostaria saber quanto que é seu trabalho, minha senhora?
- Não é nada, pode ir embora com Deus!
- Não é justo, eu quero pagar a senhora! Ou melhor, quero saber onde mora, amanhã trago um presente!
- Sim, moro na primeira casinha de madeira depois da ponte que vai para o São Joaquim!
- Como a senhora se chama?
- Me chamo Maria!
- Muito obrigado, Deus abençoe a senhora!
Ela disfarçou um sorriso e, antes de sair, ajeitou aquela toalha surrada na cabeça, desejou boa noite e, caminhando lentamente, sumiu na escuridão.
Em sentido contrário segui meu caminho de volta, realmente, a última chuva havia lavado a estrada.
Rapidamente cheguei em casa. Na manhã seguinte, aproveitando as horas do descanso regulamentar, decidi levar uma cesta básica e um panetone para aquela senhorinha abençoada que havia me socorrido.
Chegando na ponte entre o Taquaral e o São Joaquim, perguntei para um morador, da casinha de madeira onde morava Dona Maria!
- Moço, aqui neste pedaço não tem nenhuma Maria, a casinha de madeira que havia aqui foi demolida faz mais de 20 anos!
Agradeci e parti, tempos depois é que fui entender: Naquela madrugada eu, verdadeiramente, havia conhecido Maria!



