João Neto: Dominique

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Naqueles tempos, em Ourinhos, os circos e parques de diversões eram armados de frente ao portão lateral do Caló, na Barão do Rio Branco.

Ocorre que, naquele inverno, chegou na cidade o Gran Circo Garcia! Um circo gigante em tamanho e fenomenal em atrações: globo da morte, leões amestrados, elefantes dançarinos, palhaços engraçados, mágicos e trapezistas "voadores".

Lembro que, na semana da estreia, seus colaboradores, artistas e animais saíram em carreata pelas ruas da cidade, anunciando as sessões.

Eu, com minha caixa de engraxar nas costas, parei para ver a caravana passar, na Duque Caxias, sentido centro (naquele tempo a Duque era via de mão dupla)... E passam as carretas com os elefantes, a camioneta com os leões, os domadores, os motociclistas e por fim o carro com os trapezistas fazendo evoluções.

As cornetas dos veículos anunciavam as atrações:
- Respeitável público, sexta-feira próxima estreia o Gran Circo Garcia... Venham todos! Além de todas atrações, diretamente da França, a fantástica trapezista Dominique Galtier!

Rapazzz... Quando vi a tal Dominique, paramentada com um macacão colorido e colante, destacando suas curvas, meu coração disparou - apaixonei à primeira vista por aquela boneca "reborn" de carne e osso. Cheguei sonhar com a francesinha!

Naquela semana não engraxei quase nada, com o tempo chuvoso ninguém engraxava os sapatos! Não pude ir ao circo ver a musa dos meus sonhos juvenis.

Na segunda-feira, quando voltei da escola, debaixo de chuva, percebi o circo ainda lá.



Cheguei em casa, pedi dinheiro para meu pai, para ir ao circo (a única vez na vida que pedi dinheiro para ele).
Ele respondeu:
- Só terei dinheiro quarta-feira! Exclamou!
- Tudo bem, eu espero até quarta! Respondi!
Na quarta-feira, voltando da escola, a decepção: o circo havia partido!

Não acreditei, me bateu uma tristeza terrível, mesmo frustrado, apressei os passos para avisar meu pai que não precisava mais do dinheiro! Penso que ele deu graças a Deus!

Por coincidência, para atormentar ainda mais meu coração, no caminho de volta, pela Barão do Rio Branco, numa das casas de muro baixo, o rádio ligado debochando de mim, tocando em volume alto:
"Dominique nique nique, sempre alegre esperando, alguém que possa amar, o seu príncipe encantado, seu eterno namorado, que não cansa de esperar...".