João Neto: "Festa no Apê"

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Após a regularização de um defeito na rede elétrica, no centro comercial da cidade, pouco antes da sete da manhã, observo um catador de papelão empurrando seu carrinho e cantando alegremente:

- “Hoje é festa lá no meu apê, pode aparecê, vai rolar bundalelê...”.

Repetia seguidamente essa infame canção, enquanto fazia manobras com seu carrinho, de coloração indefinida.
Vez em quando parava e revirava os lixos das lojas, garimpando restos de papelão.

O mais impressionante é que todos que passavam por ele recebiam um largo e alegre sorriso, além de um estrondoso “bom dia!”.

O que leva um sujeito de tão poucos recursos, exercendo uma profissão tão penosa, que acordou antes das cinco da manhã (o volume da carga denunciava isso) transmitir tamanha e tão contagiante alegria?

A resposta é simples: Está com saúde e tem Deus no coração.

Sua alegria reafirma a tese de que, dinheiro tem muito pouco a ver com a felicidade e, o stress gerado pela busca de bem materiais acaba por suprimir nossa alegria.

Não digo que temos que sair por aí rasgando dinheiro e cantando "festa no apê", mas o excesso de ouro acaba nos escravizando. Muitas vezes, deixamos de lado o sorriso, nos fechamos e amarramos a cara feito um pitbull.

Muitas vezes nos sentimos meio deuses, encouraçados em nossos apês confortáveis, posando de donos do mundo, nos esquecendo de sorrir e cantar.



Zequinha (o catador de papelão), quando eu ainda estava no alto do poste, olhou pra cima e gritou:

- Bom dia pra você também - homem aranha!

Respondi com outro bom dia e ele seguiu, revirando lixos, assobiando e cantando rua abaixo!

Ah, antes que eu me esqueça:

- Bom dia pra vocês, também!