João Neto: Fragmento de uma carta de amor

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Num outro setembro frio, estive visitando a cidade onde fui criado, Ourinhos, especificamente visitei o Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na Vila Perino, onde iniciei catequese... Estava um ventinho frio e chato que esfriava minhas orelhas e varria as folhas secas caídas de uma árvore antiga, bem no paço da igreja.

Na escadaria do Santuário o vento arrasta até meus pés um pedaço de papel rasgado e amassado. Tal papel trazia um sutil tom rosa choque como cor predominante, além de motivos florais e borboletas nas bordas. Percebi ser a parte de baixo da folha, que costumamos chamar de “rodapé”.

A caligrafia inserida no papel era delicada, seguramente feminina e, possivelmente, de uma adolescente.
 
Afirmo, sem medo de errar, que a jovem escreveu naquela folha de diário uma carta de amor, pois a frase final, única que restou do papel rasgado, era direta e recheada de sentimento:
“Eu só queria que você soubesse que eu te amo, Juninho”!  Ass. Letícia.

Nossa, um discurso de quem ama! Que raridade!

Possivelmente Letícia não quis “pagar mico”. Acabou por rasgar, e amassar, aquilo que havia saído de dentro de seu coração. Teve medo ou vergonha, sufocou seu sentimento mais sublime.

Hoje, nossa mente embotada proíbe que externemos nossos melhores sentimentos, nossos melhores amores, nossos melhores corações.

- E por que de tudo isso?

Ficou fora de contexto dizer que ama, e quem ama não sustenta o que diz. Fica relegado às linguagens e pensamentos existentes, e se disser torna-se zoado, zombado, depreciado e excluído da “turma”.

Prefere-se, hoje, usar linguagens banais e inconclusas de redes sociais tipo: Facebook, Messenger, Twitter ou outra tecnologia qualquer.

Essas novas tecnologias de comunicação, além de desintegrar sentimentos e separar pessoas, cometeram aquilo que considero um crime inafiançável: desuniu os corações!

- Juninho, hei Juninho! A Letícia só queria que você soubesse que ela o ama!

Você é quem está certa, menina... Ame, ame muito, ame demasiadamente... Amar não é prejudicial à saúde, mas segue uma observação de alguém mais experiente que você: Jamais, Letícia, torne a rasgar em “não” o que seu coração romântico escreveu em “sim”!

Boa sorte menina!
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