João Neto: “Mil razões para acreditar”

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Qualquer que seja nossa função, em qualquer ramo de atividade, eventualmente pressentimos alguma situação estranha que, por vezes, acaba estragando nosso dia!

Pressenti que minha patroa iria cortar a entrega do leite, da Dona Zuza, quando aquela senhorinha negra, miudinha, adorável e simpática ficou viúva do carroceiro.



O filho, que trabalhava na cerâmica amassando barro, e mal conseguia pagar seu próprio álcool, não dava conta de ajudá-la.
Eis que chega o dia:
- Marreco, não precisa entregar mais o leite da Dona Zuza, faz seis meses que ela não paga!
Dona Zuza era vizinha de cerca da Dona Benedita, outra mulher educada, mas que não sabia fazer as bolachinhas de nata que Dona Zuza fazia.
Todos os dias Dona Zuza deixava três bolachinhas de nata pra mim, dentro de um pires verde, de ferro esmaltado.
No dia seguinte cheguei cedinho e percebi as duas vasilhas em cima da mureta: a chaleirona de ferro da Dona Benedita, a caneca da Dona Zuza, além do pires com as bolachinhas.

Enchi a leiteira de Dona Benedita e fui saindo, ela me interpelou:
- Pq vc não trouxe o leite da Zuza?
- A patroa falou que não é mais pra trazer!
- Entendi! Respondeu ela.
- Fala pra sua patroa, se tem como passar a me entregar mais um litro de leite por dia!
- Beleza, falo pra ela.

E segui até terminar toda entrega.
Falei pra patroa sobre o pedido da Dona Benedita, ela disse que poderia sim e pediu pra que eu levasse mais um litro de leite pra ela.

Chegando lá me deparei com a maior demonstração de solidariedade que eu veria em  toda minha vida... Bati palmas e ela me atendeu dizendo:
- Coloca este leite na caneca da Zuza, mas ela não precisa saber... Todos os dias vc pode colocar o meu outro litro de leite na vasilha dela!

E assim fiz, nos meses que se sucederam, até o dia que não entreguei mais leite, fui trabalhar como engraxate, uma atividade penosa e insalubre, que rendia um pouco mais.

Desde aquele dia passei a entender o que é uma pessoa de alma pura e sublime!

Descobri, parafraseando o Roupa Nova, que "os corações não são iguais".