Naqueles tempos, de profunda escuridão, quando eu cruzava as ruas de Ourinhos, com uma caixa de engraxar nas costas e uma puta vontade ganhar alguns trocados.
A necessidade do dia era ganhar dinheiro (eu estava com fome) para comprar um doce, aguando de vontade de comer um simples "suspirão cor de rosa", talvez o doce mais barato das vitrines do meu tempo.
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Sentado quase em frente à "Pão e Vinho", na Antônio Carlos Mori, já levantando para voltar pra casa, sem um tostão no bolso, me aparece um senhor de cabelos brancos, camisa de linho, calça tergal de boa qualidade, enfim, um sujeito bem alinhado:
- Menino, quanto você cobra para passar um pano no meu sapato?
- Só passar um pano? Indaguei!
- Sim, só pra tirar o pó, vou participar de uma reunião ali no Grêmio! Me apontando a esquina do Grêmio.
- Não é nada, não! Eu limpo rapidinho!
Ele aceitou, colocando o pé na base da caixa... Em dois minutos limpei os sapatos do homem.
Ele agradeceu, tirou a carteira do bolso, me entregando uma nota de dez mil cruzeiros, coisa de dez reais hoje.
- Não, não é nada!
- Pega, é seu!
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Rapaz... que emoção... agradeci, ele já partindo, olhou para trás, fez um gesto de continência e seguiu sorrindo, sentido Grêmio Recreativo.
O dinheiro dava, tranquilamente, uns vinte suspiros, comprei só um, o troco levei pra minha mãe comprar sabão em pedra.
Nunca me esqueci desse fato, aliás nunca esqueci daquele bendito senhor que nem o nome fiquei sabendo.
E o tempo passou...
Semana passada, mais de cinquenta anos depois, véspera de primeiro de maio, na fila do supermercado, um rapaz simples, jovem, com um menino de uns dez anos, contava as moedas do bolso para pagar sua compra... o menino insistia pedindo um chocolate do expositor perto do caixa, o rapaz, nervoso, foi ríspido com o guri:
- Cala a boca, não está vendo que eu não tenho dinheiro!
O menino se calou, triste, baixou a cabeça... o cara não tinha dinheiro mesmo, teve que devolver uma caixa de leite e um pote de margarina, passou o valor das moedas.
Eu posso ter meus defeitos, porém, nunca esqueci de onde vim, nem tampouco os tempos cruéis me fizeram perder a ternura.
Eu disse para o sujeito:
- Se você não se incomodar eu pago o dinheiro que faltou!
Os olhos do sujeito brilharam, e sinalizou positivamente com a cabeça, aproveitei e entreguei um chocolate “KitKat” para o menino... a diferença não foi nem quinze reais, valor que não me fará falta alguma!

O leite, a margarina e o chocolate certamente farão a alegria daqueles dois.
Saíram sem saber meu nome, mas, acredito que, daqui uns cinquenta anos se lembrarão de mim, um senhor de cabelos brancos que, naquele momento foi um instrumento na mão de Deus para fazer o bem!
Assim seja!
Ilustração

A necessidade do dia era ganhar dinheiro (eu estava com fome) para comprar um doce, aguando de vontade de comer um simples "suspirão cor de rosa", talvez o doce mais barato das vitrines do meu tempo.
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Sentado quase em frente à "Pão e Vinho", na Antônio Carlos Mori, já levantando para voltar pra casa, sem um tostão no bolso, me aparece um senhor de cabelos brancos, camisa de linho, calça tergal de boa qualidade, enfim, um sujeito bem alinhado:
- Menino, quanto você cobra para passar um pano no meu sapato?
- Só passar um pano? Indaguei!
- Sim, só pra tirar o pó, vou participar de uma reunião ali no Grêmio! Me apontando a esquina do Grêmio.
- Não é nada, não! Eu limpo rapidinho!
Ele aceitou, colocando o pé na base da caixa... Em dois minutos limpei os sapatos do homem.
Ele agradeceu, tirou a carteira do bolso, me entregando uma nota de dez mil cruzeiros, coisa de dez reais hoje.
- Não, não é nada!
- Pega, é seu!
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Rapaz... que emoção... agradeci, ele já partindo, olhou para trás, fez um gesto de continência e seguiu sorrindo, sentido Grêmio Recreativo.
O dinheiro dava, tranquilamente, uns vinte suspiros, comprei só um, o troco levei pra minha mãe comprar sabão em pedra.
Nunca me esqueci desse fato, aliás nunca esqueci daquele bendito senhor que nem o nome fiquei sabendo.
E o tempo passou...
Semana passada, mais de cinquenta anos depois, véspera de primeiro de maio, na fila do supermercado, um rapaz simples, jovem, com um menino de uns dez anos, contava as moedas do bolso para pagar sua compra... o menino insistia pedindo um chocolate do expositor perto do caixa, o rapaz, nervoso, foi ríspido com o guri:
- Cala a boca, não está vendo que eu não tenho dinheiro!
O menino se calou, triste, baixou a cabeça... o cara não tinha dinheiro mesmo, teve que devolver uma caixa de leite e um pote de margarina, passou o valor das moedas.
Eu posso ter meus defeitos, porém, nunca esqueci de onde vim, nem tampouco os tempos cruéis me fizeram perder a ternura.
Eu disse para o sujeito:
- Se você não se incomodar eu pago o dinheiro que faltou!
Os olhos do sujeito brilharam, e sinalizou positivamente com a cabeça, aproveitei e entreguei um chocolate “KitKat” para o menino... a diferença não foi nem quinze reais, valor que não me fará falta alguma!

O leite, a margarina e o chocolate certamente farão a alegria daqueles dois.
Saíram sem saber meu nome, mas, acredito que, daqui uns cinquenta anos se lembrarão de mim, um senhor de cabelos brancos que, naquele momento foi um instrumento na mão de Deus para fazer o bem!
Assim seja!
Ilustração






