João Neto: Onde erramos?

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Era assim...

As "compras de casa" eram efetuadas no empório perto de casa, tudo rigorosamente anotado pelo comerciante na indubitável caderneta de fiado.

O leite e o pão eram deixados, dependurados no portão, no romper da madrugada, pelo padeiro e pelo leiteiro, tudo anotado na sagrada caderneta de fiado... Sim, sem heresia, a "caderneta de fiado" era uma espécie de contrato informal de confissão de dívida, por isso era "sagrada", era um contrato de confiança e respeito.

Assim, também, era com o dono do açougue, da farmácia, do boteco... Tudo "fiado", na caderneta, que seriam pagos no final da quinzena, do mês ou no final da safra.

Acreditem: no pão e no leite deixados no portão, antes do sol nascer, ninguém mexia, o tal respeito à propriedade alheia.

E hoje? Mudou o mundo ou mudamos nós, Geraldo?

Mudou tudo, por nossa culpa: Culpa da mulher da padaria que um dia anotou dois ou três pães a mais, do freguês que não cumpriu com o pagamento na data combinada, do boy que enfiou o chocolate no bolso dentro do peg pag... O boêmio que em certa madrugada subtraiu o pão no portão do vizinho (ninguém estava vendo mesmo!).

Tudo mudou, colocamos grades nos muros e nas janelas... Levantamos o muro pra não mais ver a cara do vizinho e seu filho maconheiro, deixamos de falar: Bom dia!

A "esperteza" gerou a desconfiança, que atingiu um patamar insustentável, ao ponto do rapaz do caixa do supermercado, que me conhece há anos, colocar minha nota de 50 contra a luz, desconfiando da autenticidade.

Acabou Geraldo, acabou!

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