João Neto: Onde os trilhos ainda lembram

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O tempo passa como os trens que cruzam esses trilhos: nunca os mesmos, ainda que sigam pelo mesmo caminho.

João encosta na coluna de sempre, braços cruzados, olhos perdidos no horizonte — e por um instante, não é mais o homem que ali está. É o menino que corria descalço por essa plataforma, ouvindo o apito ao longe, sonhando com lugares que os trilhos prometiam alcançar.

A Ourinhos que ele guarda não é mais esta. Os vagões enferrujam parados, o silêncio tomou conta dos horários, e a estação que já foi o coração pulsante da cidade hoje é só memória de concreto e ferro.

Mas há coisas que o tempo não consegue levar. Ele apenas as muda de lugar — do olho para o peito, da rua para a lembrança.

Porque, como já dizia o velho Heráclito, ninguém pisa duas vezes no mesmo rio. Mas o rio, de algum jeito, continua sendo o mesmo rio. E Ourinhos, mesmo transformada, continua sendo a mesma Ourinhos de João.
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