João Neto: Sobre Almas Frágeis

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Num domingo, antevéspera do Natal, fui até Ourinhos procurar meu irmão eletricista... Alguém me disse que ele estava “mocozado”, com outros bêbados, debaixo do viaduto da Jacinto Sá sobre a Raposo Tavares.



Todos irmãos já haviam tentado ajudá-lo... Eu também, inclusive três internações consentidas em casas de recuperação, porém, em todas ele recaiu!

Penso que ele já tinha desistido da vida, eu não!

Decidi tentar de novo!!

Parei meu carro, tive dificuldades para reconhecê-lo, todos os seis ali esparramados com aparência de "homem do saco", todos com flagrante fragilidade de corpo e alma!

- Vamos, Alair... Levanta daí, vou te levar tomar um banho e fazer essa barba, vem passar o Natal comigo!

- Eu só vou se puder levar meus amigos! Respondeu.

Tentei me controlar mas não deu:
- Você acha mesmo que vou levar essas tranqueiras pra minha casa?!

Ele não disse mais nada, antes de retornar pro seu abrigo fedorento, me mostrou o dedo do meio e me mandou tomar...

Foi a última vez que o vi com vida... Dias depois foi encontrado morto em outro muquifo, no Jardim Anchieta!

Assim terminou a caminhada do irmão da alma mais frágil, baita profissional de instalações elétricas, amigo dos amigos, que sucumbiu à bebida.


Foto: Arquivo Pessoal

Qualquer semelhança com "O Ébrio", do Vicente Celestino, não terá sido mera coincidência!