João Neto: Uva Japonesa

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A primeira vez que mudamos para o Paraná, não foi bem para buscar dias melhores, foi para fugir dos dias miseráveis!

Uma cidade longe toda vida, perto de Maringá, onde as dificuldades foram piores, bem piores!

A escassez de tudo, inclusive a alimentação básica, invadiu nossa mesa, tanto que não ficamos nem seis meses naquele fim de mundo.

Eu e meus irmãos, devido à desnutrição, nos tornamos magrelos, esqueléticos mesmo... um recurso de emagrecimento natural e forçado, mil vezes mais eficiente que o atualíssimo "mounjaro".

Como as refeições eram ineficientes, sem nenhum complemento alimentar, tipo café da manhã ou sobremesa, a gente se virava procurando frutas no mato, beira de rio e nos terrenos baldios: mamão, goiaba, manga entre outros!

Descobrimos então um pé de uva japonesa, bem na esquina de casa, um pé de árvore robusta de grande porte, dava uma fruta parecida como a miniatura de um gengibre, de sabor característico e extremamente adocicada, enjoativa pra dedéu!

A primeira vez que levamos alguns cachos para casa minha mãe os lavou e experimentou a tal uva, lembro-me que ela comia aquilo com uma boca boa, fechava os olhos para comer e ainda fazia aquele: hummmmm, que delícia!

Toda vez que a comida era pouca ela pedia pra gente buscar a uva, e toda vez que ela comia era o mesmo ritual: "hummmm, que delícia"!

Para acompanhá-la a gente fazia a mesma coisa, fechava os olhos e: " hummmm, que delícia!".

Sinceramente eu detestava aquela fruta, mas, para agradar minha mãe, eu fazia de conta que gostava daquilo.

Ainda bem que ficamos pouco tempo naquele lugar, voltamos para Ourinhos para um novo recomeço... aliás, nossa vida sempre foi marcada por recomeços!

E o tempo passou...

Fiquei maior de idade, minha mãe foi morar com Deus, porém, pouco antes da sua partida definitiva ela me confidenciou:

- João, eu detestava uva japonesa, eu fingia gostar pra incentivar vocês a se alimentarem com alguma fruta!

- Eu também detestava, mamãe, na verdade detesto até hoje, só comia para agradar a senhora!

Anos depois, mudei de novo para o Paraná, desta vez sozinho.

Eis que aqui, atuando na rede elétrica - na área rural da cidade, certa vez me deparei com um grande pé de uva japonesa, colhi um galho, sentei na sombra da árvore e fiquei "saboreando" a tal uva japonesa, com direito a fechar os olhos e suspirar: "hummm, que delícia".
 
Confesso que, ainda hoje, sempre que vejo um pé de uva japonesa, tenho vontade em chorar! Talvez seja a lembrança mais doída e doce da minha mãe... Classifico nosso fingimento, tanto da mamãe quanto nosso, como uma postura necessária, o tal fingimento inofensivo.

Fingimento maior, foi retratado na canção do grupo vocal "The Platters" - " The Great Pretender" - O Grande Fingido!
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