Justiça determina liberação de documentos sigilosos sobre morte de Tancredo Neves, ocorrida há mais de 40 anos

Decisão unânime do Tribunal Regional Federal da 1ª Região permitirá que familiares tenham acesso a prontuários e registros médicos para investigar possíveis falhas no tratamento do presidente eleito, que morreu antes de tomar posse em 1985.
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Mais de quatro décadas após a morte de Tancredo Neves, a Justiça Federal determinou que documentos médicos até então mantidos sob sigilo sejam disponibilizados à família do ex-presidente. A decisão poderá ajudar a esclarecer dúvidas sobre o tratamento recebido pelo político, que morreu em 21 de abril de 1985, antes de assumir a Presidência da República.

Segundo informações divulgadas pelo g1 e pelo Estadão, a decisão foi tomada por unanimidade pela 13ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em julgamento realizado no dia 26 de outubro de 2026.

O processo foi movido por Tancredo Augusto Tolentino Neves, filho do ex-presidente, contra o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF).

Com a decisão, as entidades deverão fornecer prontuários, relatórios, registros de atendimento, identificação dos médicos envolvidos e outros documentos relacionados à internação e ao tratamento de Tancredo.

Morte ocorreu antes da posse presidencial
Tancredo Neves foi eleito presidente da República em 1985, após mais de duas décadas de regime militar, tornando-se um dos principais símbolos do processo de redemocratização do Brasil.

Entretanto, na véspera da posse, marcada para 15 de março daquele ano, ele foi internado em Brasília com um quadro de diverticulite, uma inflamação que atinge o intestino grosso.

O presidente eleito passou por procedimentos cirúrgicos e enfrentou sucessivas complicações de saúde. Após mais de um mês de internação, morreu em 21 de abril de 1985.

Com sua impossibilidade de assumir o cargo, o vice-presidente eleito, José Sarney, tomou posse e passou a comandar o país durante a transição democrática.

Família busca esclarecer suspeitas de erro médico
A busca por informações ganhou força em 2010, com a publicação do livro O Paciente: O Caso Tancredo Neves, do escritor Luís Mir.

A obra, elaborada com autorização da família, levantou questionamentos sobre procedimentos adotados durante a internação, incluindo a necessidade de uma cirurgia de emergência, a presença de numerosas pessoas na sala cirúrgica e possíveis falhas na recuperação do paciente.

Outro ponto que desperta o interesse dos familiares é a existência de advertências aplicadas a médicos envolvidos no atendimento pelo Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal.

A família pretende conhecer os fundamentos dessas medidas e verificar se houve irregularidades na condução do tratamento.

As suspeitas de erro médico, entretanto, não representam uma conclusão definitiva sobre as causas da morte. O acesso aos documentos poderá permitir uma análise mais detalhada dos procedimentos realizados.


Tancredo Neves durante discurso, em foto de julho de 1984 — Foto: Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo/Arquivo

Tribunal reconheceu interesse histórico dos documentos
As entidades médicas haviam negado o acesso aos registros, alegando a necessidade de preservar o sigilo profissional e a confidencialidade das informações do paciente.

O desembargador federal Roberto Carvalho Veloso, relator do processo, considerou que o sigilo médico não pode ser aplicado de maneira absoluta quando existem circunstâncias excepcionais e interesse legítimo dos familiares.

O tribunal também reconheceu que o caso ultrapassa a esfera privada, por envolver um acontecimento de grande relevância para a história política brasileira.

A decisão levou em consideração entendimentos do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que admitem, em determinadas situações, o acesso de familiares a informações de pessoas falecidas.

Documentos poderão contribuir para nova edição de livro
Segundo o Estadão, os documentos solicitados também serão utilizados na preparação de uma segunda edição do livro O Paciente: O Caso Tancredo Neves.

A advogada Juliana Porcaro, representante da família, afirmou ao g1 que o objetivo é compreender os procedimentos adotados e esclarecer questionamentos que permanecem desde 1985.

Os conselhos de medicina informaram ao g1 que ainda não haviam sido oficialmente notificados da decisão.

A liberação dos registros representa uma nova etapa na busca por esclarecimentos sobre um dos episódios mais marcantes da história política brasileira, ocorrido justamente durante a transição do regime militar para o governo civil.

Fontes: g1 e Estadão
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