Polícia Federal desmonta fábrica clandestina de cigarros em Ourinhos e resgata 14 paraguaios em condições análogas à escravidão

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A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira, 15, a Operação Chrysós, com foco em combater uma complexa organização criminosa transnacional envolvida em crimes como redução à condição análoga à escravidão, descaminho, crimes contra as relações de consumo, falsificação de marcas, fabricação de substâncias nocivas à saúde, além de tráfico de pessoas e promoção de migração ilegal para trabalho forçado. Um homem de 40 anos foi preso em Ourinhos. 

O destaque da operação recai sobre a cidade de Ourinhos (SP), onde funcionava uma fábrica clandestina de cigarros, localizada, na 
Avenida  Feodor Gurtovenco, 455, no Distrito Industrial II de Ourinhos. Segundo a Polícia Federal, o local abrigava 14 paraguaios mantidos em condições degradantes e confinadas, trabalhando em jornadas exaustivas e sem comunicação com o mundo externo. (chegou a informação que o barracão estava na zona rural, mas foi corrigida, pois está no Distrito Industrial II)




A estrutura, que operava de forma itinerante, estava prestes a ser desmontada e transferida para outro município, possivelmente Marília (SP), quando foi interceptada pela força-tarefa. As trabalhadoras seriam levadas ainda hoje para Marília, onde receberão acompanhamento das autoridades trabalhistas.





A investigação, conduzida pela Polícia Federal de Guaíra (PR) — ponto de entrada dos estrangeiros no país — revelou que os integrantes da organização criminosa recrutavam as vítimas no Paraguai e as traziam ao Brasil por via terrestre, principalmente pela fronteira com o Paraná, utilizando a cidade de Guaíra como rota de entrada. A partir dali, eram levadas até Ourinhos, onde ficavam totalmente isoladas e obrigadas a produzir cigarros de forma contínua, em um ambiente insalubre e improvisado.



Estima-se que a capacidade produtiva da fábrica clandestina ultrapassava os 60 mil maços de cigarro por dia, configurando um esquema milionário de contrabando. Segundo as autoridades, essa pode ter sido a primeira fábrica clandestina de cigarros descoberta no interior de São Paulo, sendo possivelmente a maior já registrada na região do Centro-Oeste Paulista.



Ao todo, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva nos estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, além do bloqueio de bens da organização criminosa, que somam R$ 20 milhões.

A operação contou com a participação de agentes da Polícia Federal, do Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho. O local exato da fábrica ainda não foi divulgado, mas a Polícia Federal já confirmou que as máquinas estavam prontas para serem transportadas e remontadas em novo destino, o que reforça o modo de atuação itinerante do grupo criminoso.

Com essa ação, Ourinhos, que já era apontada como ponto estratégico de tráfico no interior paulista, passa a figurar também na rota do contrabando internacional de cigarros. A investigação prossegue com desdobramentos previstos para os próximos dias.

Trabalhadores em situação análoga à escravidão


Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), os trabalhadores eram recrutados no Paraguai por meio de aplicativo de mensagens com a promessa de receber salários de R$ 4 a R$ 5 mil pelo trabalho de 45 dias.



Os funcionários atravessavam a fronteira no estado do Paraná, especialmente pelo município de Guaíra, via terrestre. Depois, eram levados até Ourinhos, no interior de São Paulo, onde funcionava a fábrica.

Ao chegar no local, segundo o MPT, os trabalhadores tinham os celulares confiscados e eram mantidos sob vigilância constante, sem acesso ao mundo externo, dormiam em condições precárias e eram submetidos a jornadas exaustivas.

A PF apurou ainda que planta industrial da fábrica tinha capacidade para produzir cerca de 60 mil maços de cigarros por dia.

Após serem resgatados, os paraguaios relataram ao MPT que passaram dias comendo apenas bolachas.

Foi lavrado um auto de infração contra a empresa, garantindo que os trabalhadores recebam o pagamento de seguro-desemprego previsto em lei.

Em seguida, eles serão conduzidos para Cidade do Leste, cidade paraguaia na fronteira com Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, para retornarem às suas casas.

Além dos crimes de trabalho análogo à escravidão, a PF investiga outros delitos associados, como descaminho, violação de marca, fabricação de substância nociva à saúde, promoção de tráfico de pessoa e migração ilegal.

A operação contou com apoio de cerca de 50 policiais federais, além de servidores do Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho.