Quebra de banco digital no Paraguai bloqueia dinheiro de milhões de clientes, provoca protestos e derruba presidente do Banco Central

Ueno Bank possui 2,9 milhões de clientes, equivalentes a cerca de 40% da população paraguaia. Crise provocou oito prisões, renúncias no Banco Central e mobilização do Congresso para acelerar a devolução dos depósitos.
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Uma grave crise financeira atingiu o Paraguai após a intervenção no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país, deixando milhões de clientes com dificuldades para acessar suas contas e provocando manifestações nas ruas de Assunção.

Segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo, a quebra da instituição desencadeou uma crise que ultrapassou o setor bancário, afetando o comércio, aposentados, pensionistas e o próprio governo paraguaio.

O banco possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes, número equivalente a cerca de 40% da população do Paraguai, estimada em 7,1 milhões de habitantes.

Além disso, a instituição processava quase 3 milhões de transações por dia, respondendo por aproximadamente dois terços dos pagamentos eletrônicos realizados nas grandes redes varejistas do país.

Com o bloqueio das contas, consumidores ficaram impossibilitados de realizar pagamentos, enquanto estabelecimentos comerciais enfrentaram dificuldades para manter suas vendas.

Banco Central interveio após identificar problemas financeiros
A crise ganhou força depois que o Banco Central do Paraguai decidiu iniciar o procedimento de resolução do Ueno Bank, após constatar problemas de capitalização na instituição.

A medida resultou no bloqueio do acesso às contas e aos investimentos dos clientes.

O impacto foi imediato. Longas filas se formaram em frente às agências, com correntistas tentando obter informações e recuperar suas economias.

Entre os atingidos estão aproximadamente 32 mil aposentados e pensionistas, que recebem seus benefícios por meio do banco e ficaram temporariamente sem acesso ao dinheiro.

O Ueno Bank é considerado o sexto maior banco paraguaio em volume de depósitos.

Desde que passou a operar como banco, em dezembro de 2023, a instituição apresentou crescimento acelerado, acumulando depósitos de aproximadamente 17 trilhões de guaranis, equivalentes a US$ 2,8 bilhões.

Crise provoca oito prisões e renúncias no Banco Central
A repercussão também atingiu a direção da autoridade monetária paraguaia.

O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo, assim como outros dois dirigentes, Marco Aurelio González e Carmen Marín.

Diante da crise, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou o economista Raúl Vera Bogado como novo comandante do Banco Central.

Segundo O Globo, a investigação já resultou em oito prisões, envolvendo dirigentes do Ueno Bank e executivos de empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira.

O Ministério Público paraguaio também investiga possíveis irregularidades relacionadas à administração do banco.

As prisões fazem parte das apurações e não representam condenações definitivas.

População vai às ruas e manifestações terminam em confrontos
A retenção dos depósitos provocou revolta entre correntistas.

Centenas de pessoas participaram de manifestações no centro de Assunção, capital do Paraguai, exigindo a devolução imediata dos recursos.

De acordo com o jornal paraguaio ABC Color, um protesto inicialmente pacífico em frente ao Panteão Nacional dos Heróis terminou em tumulto quando manifestantes tentaram avançar em direção ao Congresso Nacional e foram contidos pela polícia.

Outro grupo protestou nas proximidades da residência oficial do presidente Santiago Peña, conhecida como Mburuvicha Róga.

Os manifestantes cobraram garantias de recuperação integral dos depósitos, incluindo recursos da Previdência Social.

Entre os relatos divulgados pela imprensa internacional está o de um aposentado de 68 anos que afirmou ter perdido o acesso às economias acumuladas durante toda a vida.

A situação também afeta estudantes, trabalhadores e famílias que dependem das contas bancárias para despesas básicas.

Congresso tenta acelerar devolução do dinheiro
O Paraguai possui um sistema de garantia de depósitos semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro.

Pelas regras mencionadas na reportagem, a cobertura alcança até 75 salários mínimos paraguaios, equivalentes a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis, ou US$ 37,4 mil.

O prazo previsto para devolução dos recursos pode chegar a 15 dias, o que aumentou a preocupação da população.

Inicialmente, o Banco Central anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 9,1 mil, aos correntistas atingidos.

Entretanto, diante da dimensão da crise, o Senado paraguaio aprovou uma proposta para antecipar parte da devolução para 24 horas, elevando o adiantamento para 121 milhões de guaranis, equivalentes a aproximadamente US$ 19,8 mil.

A expectativa é que esse limite permita à maioria dos clientes recuperar integralmente seus depósitos.

A proposta, porém, ainda não havia sido concluída no Congresso.

Nesta quarta-feira (4), a Câmara dos Deputados solicitou alterações no texto, após identificar problemas na forma prevista para pagamento, que poderia ocorrer nas próprias contas bloqueadas.

Com isso, o projeto precisaria retornar ao Senado para nova análise.

Crescimento do Ueno Bank levanta questionamentos políticos
Outro aspecto da crise envolve a relação entre o banco e o governo paraguaio.

Segundo O Globo, os depósitos de recursos públicos no Ueno Bank cresceram significativamente durante o governo Santiago Peña, iniciado em 2023.

No final de junho, os depósitos governamentais na instituição alcançavam aproximadamente 5 trilhões de guaranis, equivalentes a US$ 869 milhões, representando cerca de 29% do total de depósitos do banco.

O crescimento acelerado da instituição e sua relação com recursos públicos passaram a provocar questionamentos políticos.

A instituição também havia captado aproximadamente US$ 350 milhões em março, por meio de uma emissão de títulos corporativos.

As circunstâncias que levaram à crise financeira e eventuais responsabilidades dos administradores continuam sob investigação.

Presidente tenta tranquilizar a população
Em meio à repercussão, o presidente Santiago Peña divulgou um vídeo nas redes sociais buscando transmitir segurança aos cidadãos.

Ele afirmou que o sistema financeiro paraguaio possui mecanismos de proteção e que os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder perante a Justiça.

Apesar das declarações, a preocupação permanece entre os clientes que dependem dos valores bloqueados.

A crise do Ueno Bank é considerada especialmente grave devido à ampla presença da instituição no cotidiano dos paraguaios, tanto no recebimento de salários e benefícios quanto nas compras realizadas por meios eletrônicos.

A situação segue em desenvolvimento, enquanto o governo, o Banco Central e o Congresso buscam alternativas para restabelecer o acesso dos correntistas aos seus recursos e conter os efeitos da crise sobre a economia do país.
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