Relatório do Cenipa aponta falhas da Voepass, pilotos e fiscalização da Anac em acidente que matou professor de Ourinhos e outras 61 pessoas

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O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), tragédia que vitimou 62 pessoas e entrou para a história como o maior desastre aéreo brasileiro desde 2007. O documento conclui que uma sequência de falhas envolvendo a companhia aérea, a tripulação e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para o acidente.

Entre as vítimas estava o professor Adriano Daluca Bueno, de 47 anos, natural de Ourinhos. Adriano nasceu e cresceu na Vila Margarida e era professor do Colégio Estadual Dario Vellozo, em Toledo (PR). Formado em Engenharia de Materiais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), também atuava como engenheiro de segurança do trabalho, engenheiro de produção e empresário. Ele viajava acompanhado da companheira, Raquel Ribeiro Moreira, docente da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), que também morreu na tragédia.

Na época do acidente,
o corpo de Adriano foi velado em Ourinhos, com grande comoção de familiares e amigos. Sobre o caixão foram colocadas camisetas do Flamengo, seu time do coração, e uma bandeira do Operário Ferroviário, clube pelo qual também nutria carinho. Adriano completaria 48 anos apenas dois dias após o acidente, data que coincidiria com o Dia dos Pais.


O corpo de Adriano foi velado em Ourinhos - Foto: Laperuta

Aeronave não deveria ter decolado
De acordo com o relatório do Cenipa, a aeronave ATR 72-500 não poderia ter sido liberada para o voo porque apresentava uma falha no sistema do limpador de para-brisa, condição que impedia sua operação em horários com previsão de chuva. Ainda assim, o avião decolou de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP) e permaneceu entre oito e dez minutos em uma região de formação severa de gelo. A investigação revelou ainda que o avião possuía dez itens pendentes de manutenção antes da decolagem.

Falhas na fiscalização e na manutenção
O Cenipa também apontou que auditorias realizadas pela Anac antes do acidente já haviam identificado diversas irregularidades relacionadas à manutenção da frota da Voepass, à rastreabilidade de componentes e ao registro inadequado de panes. No entanto, segundo o relatório, essas constatações não resultaram em medidas capazes de impedir a continuidade das operações da empresa, mesmo diante da degradação dos níveis de segurança. A Anac informou que analisará as conclusões do relatório em até 120 dias.

Outro ponto destacado é que o sistema de degelo das asas apresentou falhas em voos realizados na véspera da tragédia, mas os problemas não foram registrados no diário de bordo pelos tripulantes, impossibilitando que a manutenção identificasse e corrigisse as falhas antes do acidente.


Coletiva do Cenipa responde perguntas de jornalistas sobre acidente com avião da Voepass — Foto: Gabriella Ramos/g1

Conversas paralelas e "cultura de normalização de desvios"
Segundo o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, a análise de mais de 1.200 voos da companhia revelou uma "cultura de normalização de desvios" dentro da empresa. A investigação constatou que pilotos e mecânicos frequentemente deixavam de registrar problemas técnicos para evitar que aeronaves fossem retiradas de operação. Também foram identificadas práticas como o uso de peças de outras aeronaves com defeito e atuação de auxiliares de manutenção sem supervisão adequada.

O relatório ainda aponta que, durante o voo, os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais enquanto o avião emitia alertas relacionados ao acúmulo de gelo. Conforme a investigação, os protocolos previstos para essas situações, como o acionamento adequado do sistema de degelo e alterações de velocidade, não foram executados conforme o esperado.


Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo — Foto: Gabriella Ramos/g1

Investigação técnica e criminal
Para chegar às conclusões, o Cenipa analisou as caixas-pretas da aeronave, dados de mais de 15 mil voos da mesma frota, registros de manutenção, exames nos motores e sistemas de degelo, condições meteorológicas, além de realizar entrevistas, testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500. O relatório também passou por revisão de órgãos internacionais especializados da França e do Canadá antes de sua divulgação.

Paralelamente, a Polícia Federal conduz uma investigação criminal para apurar eventuais responsabilidades pelo acidente. A expectativa é que o inquérito seja concluído nas próximas semanas e encaminhado ao Ministério Público Federal, podendo servir de base para eventuais indiciamentos.

Em nota divulgada após a publicação do relatório, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais difícil de sua história, manifestou solidariedade às famílias das vítimas e declarou que continua colaborando de forma transparente com as autoridades.

A tragédia ocorreu na tarde de 9 de agosto de 2024, quando o voo 2283 caiu em um condomínio na cidade de Vinhedo (SP), matando os 58 passageiros e os quatro tripulantes a bordo. O relatório técnico do Cenipa encerra a investigação sobre as causas do acidente e apresenta recomendações para evitar que tragédias semelhantes voltem a acontecer na aviação brasileira.
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