Santa Casa de Ourinhos em Colapso: Déficit de R$ 3 milhões mensais e burocracia ameaçam atendimento

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Em uma coletiva de imprensa e autoridades realizada na manhã desta quarta-feira, 6 de maio de 2026, o presidente da Associação da Santa Casa de Misericórdia de Ourinhos, Celso Zanuto, apresentou um diagnóstico alarmante sobre a saúde financeira da instituição. Apesar de um crescimento estrutural histórico de 123% em sua área construída nas últimas duas décadas, o hospital enfrenta hoje um déficit mensal de R$ 3 milhões, colocando em risco imediato o pagamento de salários, fornecedores e a continuidade dos serviços.



O evento contou com a presença do promotor da Saúde, Dr. Adelino Lorenzetti Neto, do secretário municipal de Saúde, Diego Singolani, e do presidente da Câmara, Cícero Investigador, além do deputado federal Capitão Augusto e outras autoridades.




A "Menina dos Olhos" e o Fantasma da Intervenção
O promotor Dr. Adelino Lorenzetti Neto falou com um tom de defesa institucional, classificando a Santa Casa como a "menina de seus olhos". Ele foi enfático ao descartar qualquer possibilidade de uma nova intervenção municipal, como a ocorrida em 2009.

"Enquanto eu for promotor aqui, não vou deixar a intervenção acontecer. Já sentimos o amargo da intervenção, que deixou uma dívida de R$ 13 milhões na época. É um defunto enterrado e consumado", afirmou Lorenzetti, destacando que a judicialização deve ser o último recurso, priorizando medidas políticas e administrativas rápidas.



O salto de 2009 a 2026: Expansão vs. Desequilíbrio
Celso Zanuto, à frente da gestão desde o fim da intervenção em 2009, apresentou números que mostram uma transformação física na unidade. A área construída saltou de 6.358 m² para 14.190 m².
Principais marcos da expansão:
  • 2012: Inauguração do novo Centro Cirúrgico e Central de Materiais (CME).
  • 2017/2019: Reforma e ampliação da UTI Adulto, Neonatal e Pediátrica.
  • 2025: Entrega da Ala A e modernização do setor de Imagem (Mamografia e Tomografia).
  • 2026: Conclusão da lanchonete do AME e ampliação da Hemodiálise; com o novo auditório e a UTI III (10 leitos) em andamento.
Atualmente, o corpo clínico conta com 140 médicos ativos e 1.239 colaboradores, atendendo a uma população regional que cresceu mais de 10% no período.



O gargalo financeiro: Tabela SUS e Burocracia
O ponto central da crise é o descompasso financeiro. Segundo Zanuto, a Santa Casa dedica 84,1% de seus atendimentos ao SUS — superando em muito os 60% exigidos por lei para manter a filantropia.

"A falta de reajuste da tabela SUS é o pivô do caos", explicou o presidente. Ele detalhou que, se a dívida bancária de R$ 13 milhões herdada em 2007 fosse apenas corrigida, chegaria a R$ 78 milhões. Hoje, a instituição possui empréstimos que somam R$ 62,8 milhões.

A questão das emendas e repasses: O secretário de Saúde, Diego Singolani, admitiu que a estrutura administrativa da prefeitura é "morosa e burocrática". Ele revelou que há cerca de R$ 6,6 milhões em atraso com a Santa Casa, incluindo verbas de emendas parlamentares.
  • Cirurgias Eletivas: Um convênio de R$ 1,35 milhão para 493 cirurgias, assinado em 2025, recebeu apenas R$ 350 mil até agora.
  • O "Caminho" do Dinheiro: Singolani criticou a exigência de pareceres jurídicos repetitivos que atrasam o repasse de verbas federais enviadas por deputados como o Capitão Augusto.


Impacto regional e vaga zero

Um dado sensível revelado foi a carga regional sobre Ourinhos. Cerca de 39% das vagas de internação são ocupadas por pacientes de municípios vizinhos como Chavantes, Salto Grande e Bernardino de Campos. Zanuto sugeriu que esses municípios deveriam contribuir com um valor per capita para ajudar a custear o atendimento de urgência e emergência, o que atualmente não ocorre.




Consequências e o que precisa acontecer
Caso os repasses municipais, estaduais e federais não sejam normalizados imediatamente, a diretoria alerta para:
  • Falta de insumos básicos.
  • Dispensa de mão de obra técnica.
  • Restrição drástica de atendimentos, com o possível fechamento de 25 leitos SUS para tentar equilibrar o caixa.
"O funcionário não trabalha de graça, a energia e a água não vêm de graça. Se o município contratou o serviço, ele tem que pagar", finalizou Celso Zanuto em tom de desabafo.

A Câmara Municipal, através de Cícero Investigador, prometeu dar "passagem livre" e prioridade total a qualquer projeto que chegue do Executivo visando a regularização dos pagamentos da saúde, desde que enviados de forma correta e com impacto financeiro detalhado.