Uma casa, muitas memórias e a arte de reinventar a vida

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Esses dias, navegando pelas ondas da internet, deparei-me com um trabalho que me fez parar por alguns instantes. Era uma casa. Ou melhor, a representação de uma casa, construída com a delicadeza de quem não trabalha apenas com as mãos, mas também com as lembranças, os afetos e a alma. Uma réplica em miniatura de um lugar que o artista carrega consigo, guardado em algum canto especial da memória. Foi assim que me encantei com o trabalho de João Cândido da Silva Neto, ou simplesmente João Neto.

Mas, antes de falar desse artista, permitam-me uma breve reflexão sobre as redes sociais e os caminhos que elas nos proporcionam.

Tenho milhares de pessoas conectadas às minhas redes sociais. São quase 15 mil seguidores somados em três perfis no Facebook, além de quase 3 mil no Instagram. Durante mais de dez anos, mantive outro perfil nessa última plataforma, que acabou sendo hackeado e onde havia construído uma comunidade de quase 10 mil seguidores. Uma história que se perdeu, mas não apagou meu desejo de continuar compartilhando aquilo em que acredito.

Procuro manter minhas redes próximas do meu universo de trabalho e dos meus interesses. Há professores, alunos, familiares, artistas, escritores, jornalistas, poetas, arquitetos, urbanistas e artesãos. Gente que reúne diferentes talentos: o médico que pinta, o agrônomo que escreve, o professor que compõe, o artesão que transforma a matéria em poesia.

Talvez essa seja uma das minhas maneiras de amar o próximo: divulgar trabalhos, dar visibilidade aos talentos e mostrar que, mesmo diante de tantas dificuldades, existe muita beleza sendo produzida por pessoas que nem sempre recebem o reconhecimento que merecem.

Foi assim que meu universo cultural, inicialmente ligado a Siqueira Campos, se expandiu pelo Norte Pioneiro, pelo Paraná e por outras regiões do Brasil. Muitas vezes, tudo começa com uma conversa, uma indicação ou uma publicação compartilhada. E foi nesse universo de encontros que conheci João Neto.

Paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, nascido em 23 de abril de 1960, João é filho de José e Conceição e cresceu em uma família numerosa, com 16 irmãos. Sua trajetória começou cedo: aos dez anos, engraxava sapatos pelas ruas de Ourinhos; aos 13, conseguiu seu primeiro emprego registrado; aos 16, tornou-se serralheiro artístico oficial.

A vida seguiu entre responsabilidades, conquistas e mudanças. Aos 24 anos, nasceu seu filho; aos 28, ingressou no Banestado por concurso público; aos 29, nasceu sua filha. Aos 40, foi aprovado no concurso do Banco do Brasil e, aos 42, encontrou o amor de sua vida. Aos 45, ingressou na Companhia Paranaense de Energia, a Copel, onde trabalhou como técnico eletricista e encontrou o melhor emprego de sua vida. Ali ganhou um apelido que o acompanharia: João da Copel.

Mas sua história não se resume ao trabalho. Desde criança, João cultivava o gosto pela leitura. Aos dez anos, buscava aos domingos o jornal Folha de S.Paulo para um comerciante vizinho e, em troca, recebia o exemplar na segunda-feira. Foi no Caderno Ilustrado que conheceu seu grande ídolo, o cronista Lourenço Diaféria. Em 2002, encantou-se com o texto “Olha o Bucheeeeiro”, de Alcir Chiari, inspiração para começar a escrever seus próprios contos.

João teve mais de 30 contos publicados na Folha de Londrina, colaborou com o jornal O Debate, de Santa Cruz do Rio Pardo, e com o portal Tanosite, de Santo Antônio da Platina. Desde 2020, mantém uma coluna exclusiva no Portal Passando a Régua, de Ourinhos.

Sua trajetória também inclui o compromisso social e ambiental. Aos 50 anos, plantou sua centésima árvore; aos 54, recebeu o prêmio de Sustentabilidade Susie Pontarolli, na área de ação social; aos 58, sua história chegou à televisão, em uma matéria no Caldeirão do Huck.

Aos 60 anos, aposentou-se e escreveu seu primeiro livro. Poderia ter encerrado ali um ciclo, mas João continuou descobrindo novos caminhos. Durante a pandemia, fez um curso on-line de miniaturismo e dioramas, em Araraquara. O que começou como hobby tornou-se uma atividade prazerosa, uma espécie de “terapia ocupacional” que também lhe rende algum dinheiro.

Aos 62 anos, sonhava iniciar um curso superior. Aos 65, escreveu seu terceiro livro. Aos 66, celebrou a chegada do quarto neto e concluiu o Curso Superior de Tecnologia em Segurança do Trabalho. Para 2027, já planeja uma pós-graduação em Segurança do Trabalho, com foco em Gerenciamento de Riscos e Limites de Tolerância.

Casado há 19 anos com Flávia Giovanna, pai de Rafael, Bruna, Brenda e João, e avô de quatro netos, ele nos mostra que sempre existe algo a aprender, uma história a escrever ou um novo sonho a realizar.

Ao observar aquela casa em miniatura, pensei em como determinados lugares são muito mais do que paredes, portas e janelas. São testemunhas da infância, dos encontros familiares e das lembranças que permanecem, mesmo quando o tempo passa. Reproduzir uma casa exige técnica e paciência, mas, quando ela representa um lugar afetivo, existe algo além da habilidade manual: existe memória.

Vivemos tempos difíceis, marcados por conflitos, intolerância e violência. Por isso, acredito que divulgar a arte também seja uma forma de resistência. A arte não resolve todos os nossos problemas, mas pode aliviar dores, despertar sentimentos e nos devolver a capacidade de enxergar beleza no mundo.

Talvez seja por isso que continuo compartilhando histórias nas redes sociais. Há muita gente extraordinária fazendo coisas que precisam ser vistas.

Conhecer João Neto é descobrir alguém que plantou árvores, escreveu livros, voltou a estudar e transformou lembranças em pequenas obras de arte. Em um mundo que tantas vezes parece empenhado em destruir, ainda há quem dedique seu tempo a construir.

Afinal, algumas casas não são feitas apenas para morar. São feitas para nos lembrar de quem somos, de onde viemos e de tudo aquilo que continua vivendo dentro de nós. E a história de João nos ensina que nunca é tarde para construir uma nova casa, contar outra história ou realizar um novo sonho.
 
Por Flávio Mello
Escritor e Secretário de Cultura
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