Justiça acata pedido do MP e determina afastamento integral do prefeito de Ourinhos, Guilherme Gonçalves

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Em despacho publicado na noite desta terça-feira, 30 de junho de 2026, a juíza Drª Alessandra Mendes Spalding, da comarca de Ourinhos (SP), deferiu o pedido de tutela de urgência formulado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e determinou o afastamento cautelar integral do atual prefeito, Guilherme Gonçalves (Podemos), pelo prazo de 90 dias. Com a decisão, que cabe recurso, o vice-prefeito Alexandre Zóio assume de forma oficial a chefia do Poder Executivo Municipal.

A medida foi tomada no âmbito de uma
Ação Civil Pública por Ato de Improbidade Administrativa, ajuizada pela 6ª Promotoria de Justiça de Ourinhos no último dia 26 de junho. O processo investiga graves ilegalidades na condução da política municipal de educação infantil e aponta que o a situação foi criada pelo ex-prefeito Lucas Pocay (PSD), mas envolveu o atual prefeito Guilherme Gonçalves, além do Instituto de Gestão Educacional e Valorização do Ensino (IGEVE) e o próprio Município.

O Cerne da Acusação: Terceirização da Atividade-Fim
De acordo com a petição inicial da Promotora de Justiça Dra. Paula Bond Peixoto, baseada no Inquérito Civil nº 0358.0000413/2024, o
Termo de Colaboração nº 15/2024 foi utilizado de maneira irregular para terceirizar a atividade-fim da educação infantil, burlando a exigência constitucional de concurso público.

O contrato foi firmado originalmente em maio de 2024, durante o ano eleitoral, na gestão do então prefeito Lucas Pocay, por meio da dispensa de chamamento público nº 16/2024. O valor inicial era de R$ 27.892.177,68 para atender cerca de 4 mil alunos em 31 unidades escolares. 


Embora a justificativa formal da prefeitura previsse a prestação de "serviços operacionais não pedagógicos", o MP-SP identificou que o Plano de Trabalho repassava funções finalísticas do magistério para a entidade privada, prevendo:
  • Desenvolvimento de proposta pedagógica baseada na BNCC;
  • Atividades de alfabetização, música, pintura, linguagem e matemática;
  • Fornecimento de 41 professores de educação infantil, 40 assistentes de sala e 15 agentes de mediação escolar;
  • Substituição indevida de profissionais concursados (como Psicopedagogos aprovados no Concurso Público nº 01/2022).
Após sucessivos aditamentos, o montante total destinado à parceria alcançou a cifra de R$ 42.230.632,58. Além disso, o IGEVE não possuía credenciamento prévio junto ao órgão gestor da educação no momento da contratação. No final de 2025, Guilherme encerrou o contrato. 

Condutas Individualizadas e Justificativa do Afastamento

Lucas Pocay (Ex-prefeito)
A Promotoria afirma que o ex-gestor foi o responsável por criar toda a situação irregular, pois tinha conhecimento do deficit de recursos humanos na educação, mas optou deliberadamente por transferir as funções para o terceiro setor por meio de contratação direcionada, afastando a competitividade.

Guilherme Gonçalves (Atual Prefeito)
O atual chefe do Executivo, que assumiu em janeiro de 2025, já em pleno funcionamento do sistema criado por Pocay, assinou três termos de aditamento ao longo do ano passado. Segundo a decisão judicial, Guilherme agiu com consciência da nulidade do ajuste.

A magistrada destacou o perigo de manter o prefeito no cargo durante a instrução processual, citando a "ascendência hierárquica e controle absoluto" sobre as pastas de Educação, Administração e Finanças, além de registros de considerável resistência da administração no fornecimento tempestivo de documentos ao MP-SP. Foi apontado ainda o risco de reiteração de práticas ímprobas, já que o prefeito é réu em outras ações por supostas fraudes semelhantes em parcerias (como a ABEDESC),
tendo sido inclusive afastado previamente da direção da pasta da Saúde.

Instituto IGEVE
A entidade privada é acusada de concorrer dolosamente para o ato, estruturando a metodologia pedagógica e gerindo as verbas sem o devido procedimento concorrencial.

Diagnóstico de Crise Estrutural e Colapso Administrativo
Ao proferir a decisão, a juíza Dra. Alessandra Mendes Spalding contextualizou que Ourinhos enfrenta um cenário de "profunda desorganização administrativa". Dados do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) anexados ao processo revelam que o Município apresenta um déficit crescente, com a despesa corrente liquidada comprometendo 108,77% da receita corrente arrecadada, estourando o limite constitucional de 95%.
O despacho detalha uma série de crises paralelas na cidade:
Medidas Determinadas pela Justiça
A fim de conciliar o restabelecimento da legalidade com a preservação do atendimento das crianças nas creches — evitando a interrupção abrupta das aulas —, a magistrada determinou as seguintes medidas de urgência:
  1. Afastamento imediato de Guilherme Gonçalves do cargo por 90 dias (prorrogáveis por igual período), mantendo seus subsídios integrais. Ele deve desocupar as dependências do Executivo levando apenas objetos pessoais.
  2. Proibição de o Município celebrar novos termos de colaboração, fomento ou convênios para execução de atividades pedagógicas e funções típicas do magistério.
  3. Apresentação, no prazo improrrogável de 90 dias, de um Plano de Transição Administrativa da Educação Infantil, contendo cronograma detalhado para substituição gradual dos terceirizados por servidores aprovados em novo concurso público.
  4. Apresentação da relação nominal completa e remunerações de todos os profissionais do IGEVE que atuaram na rede, além da preservação obrigatória de todo o acervo documental físico e digital do contrato.
O Outro Lado

Lucas Pocay
Em manifestações anteriores (maio de 2026), o ex-prefeito refutou veementemente as acusações, classificando o inquérito como fruto de denúncias políticas e argumentando que gravações anônimas anexadas envolveriam agentes da atual gestão. Diante desta nova decisão judicial, o ex-gestor ainda não se manifestou publicamente. O espaço permanece aberto.

Guilherme Gonçalves
Em pronunciamento oficial gravado em vídeo, o prefeito afastado manifestou deferência ao Ministério Público, mas criticou a abertura de novos processos. Ele alegou que sua gestão deu continuidade ao programa para evitar o fechamento de creches e não prejudicar as famílias.

"Eu fui eleito pelo voto popular, as pessoas escolheram, isso precisa ser respeitado", declarou Guilherme. "A gente não paga imprensa, e muita gente lê só o princípio da matéria e acha que a gente cometeu algum crime, que teve desvio, e não é nada disso."

O prefeito afirmou estar tranquilo e confiante na Justiça. Até a publicação deste texto, ele não havia se manifestado especificamente sobre o despacho emitido na noite de terça-feira.

Mais cedo, Guilherme havia publicado um vídeo criticando a atual gestão da saúde:

 Instituto IGEVE
O Instituto de Gestão Educacional e Valorização do Ensino não se manifestou até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para o posicionamento formal da entidade.

Terça-feira foi movimentada:


Polícia Civil cumpre mandados de busca em endereços ligados ao vereador afastado João Gonçalves em Ourinhos

Responsável pela área da Saúde de Ourinhos, vice-prefeito Alexandre Zóio afirma que atendimento na UPA está comprometido 

Ourinhos discute LDO em audiência marcada por alerta nas contas pública: dívida consolidada pode atingir R$ 179,4 milhões em 2027

Ex-secretário de Saúde em Ourinhos, que ocupa o cargo de Chefe de Gabinete atualmente, Diego Singolani, ex-prefeito em Santa Cruz do Rio Pardo, gravou um vídeo em que afirma que deixará a Prefeitura de Ourinhos e lamentou a situação política regional: 
 
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